62#A gêmea da Guerreira Dragão do Mar

22-10-2025

Capítulo 62 - Por algum acaso, nada acontece como esperamos

Estás mais poderosa? Dói muito? Hum?

Claro que dói. Como não doeria?

Não doendo! Ei... Estás a falar sozinha? És doida.

Estou a falar igualmente com outra doida. Tu não és a minha voz interior.

Pois claro que sou! Não seria?

Não és, não. De onde vêm tantos pensamentos?

De onde viriam?

Onde é que isso seria uma resposta?

Eu sei o que tu sabes. Mas tu não sabes. Então como eu saberia?

Por que desconheces a razão? Já nos conhecemos, verdade?

De tantas personalidades que viveste, não te lembras da original?

Não há original... Isso é algo que se constrói.

Sabemos disso.

Um mar de pensamentos, podemos assim descrever o mundo em que a mente da maga Azuli estava embrulhada. A mesma voz com diferentes pensamentos cruzavam entre si, ligavam-se e criavam novos pensamentos.

Eu conheço-te. Não fazes parte daqui. - um pensamento de Azuli soltou-se na sua mente escura.

Eu não sou, mas já nos encontrámos antes. - algures, na escuridão sem teto ou chão, uma pequena menina de vestido simples falou. Flutuando no breu, o equilíbrio da criança não era afetado.

Tu não te sentes real. - uma voz da Azuli veio de algum lugar, ela aparecia de onde aparecia.

Em algum plano deste mundo, eu existo, ou a minha imagem não seria mostrada a ti. - os finos lábios da criança curvavam-se singelamente, o olhar cintilante dela olhando para o breu, como se ele fosse a própria Azuli.

Eu procurei-te depois do ataque à capital real, mas ninguém havia visto uma menina como tu naquele dia... comigo. - a voz de Azuli veio, a sua apreensão depositada nesse eco.

Essa é uma história para outra hora. - a criança decidiu, permitindo que o silêncio perdurasse por um momento mais. - Vai... A hora certa de mergulhares no teu ser não é agora. Isso eu te garanto. - sem deixar o tempo passar, a luz rosada veio do peito da criança e começou a preencher o local. - Encontrar-te-ei noutra hora, em breve.

Enquanto o brilho rosado escapava da criança, cujos cabelos se tornaram da mesma cor desse, o próprio ser de Azuli tentava combater o intruso, uma pulsação de poder branco passava pela escuridão e tentava suprimir o brilho rosado que se espalhava, contudo, sem sucesso.

Há quem diga que "o que os olhos não veem, não é real", mas essa possibilidade abriu-se vezes e vezes sem conta a inúmeros humanos, elfos, anões, animais comuns, animais mágicos. E essa porta abre-se para Azuli quando os seus olhos não estão preparados.

Os olhos de Azuli abriram-se, e a colisão com o rosado foi imediata. Era a Noelle, não era uma surpresa. Ao desviar os olhos e olhar para baixo, Azuli notou que ela voava, e ao olhar novamente para Noelle ela notava que a Silva estava a meio de uma frase.

Quando? - essa era a palavra que espreitava na mente de Azuli.

"Desnorteada" e "cabeça de vento", era como Benjamin e Yuno a chamavam, respetivamente. Ela gostava de corrigi-los e dizer-lhe que isso não era verdade, mas agora ela viu... ou melhor, ela notou, pela primeira vez que, de facto, ela estava perdida em pensamentos em qualquer momento. Mas agora? Ela estava numa missão contra um grupo terrorista, e ainda assim ela perde a noção do tempo e perde o senso das suas ações.

Eu já absorvi aquele cristal de mana? - ela olhou para a sua mão, estava desfocada, mas o foco estava a melhorar. - Nós estamos a regressar a casa? - o seu olhar foi então para o mago espacial, Cob.

- Ele não deveria abrir um portal até à nossa pousada ou algum lugar dos cavaleiros mágicos? - os seus pensamentos fizeram-se palavras, às quais Noelle respondeu, seguindo o olhar da irmã.

- A prima Mereoleona quis seguir o percurso completo, ela espera poder encontrar alguma pista pelo caminho sobre a base inimiga. - a Silva respondeu.

Azuli continuou a olhar para o homem, mas o seu olhar começava a vagar para o horizonte, a sua visão desfocando os demais magos ao seu redor. Foi aí que, sobre todo o céu, uma sombra passou, no seu todo, como um vulto enorme faria se tivesse acabado de passar pelo céu completo. As orbes celeste de Azuli arregalaram-se, os seu olhos refletindo a paisagem.

"Outra anomalia." - uma voz desconhecida passou pelos ouvidos de Azuli, que se arrepiou pela aproximação que se fez sentir. Apesar disso, o corpo dela não se encolheu, não parou de voar junto a Noelle, e o olhar da menina permaneceu focado no caminho que traçavam.

Com a noite alta no céu, os cavaleiros reais regressaram à capital do país. Nenhuma luta havia sido travada, nada pelo qual se prepararam nestas últimas semanas aconteceu. O grupo terrorista que procuravam havia-os despistado. Pondo a questão - o Olho do Sol da Meia Noite sabia do plano deles?

Chegando à pousada onde haviam ficado na noite antes da sua partida, como um grupo, eles permaneceram também esta noite instalados nela. Em suas mentes, os cavaleiros reais tinham a expectativa sobre a capitã do grupo, Mereoleona, apesar de manterem os pensamentos para dentro.

Separando-se dos amigos e caminhando junto a Noelle, Azuli levou a Silva para o quarto, apressadamente. Sem o toque da sua varinha, ou o apoio do seu grimório, Azuli criou uma proteção mágica com um feitiço alternativo.

- O que aconteceu depois que absorveste a mana de volta? - cruzando os braços, a expressão presente no rosto de Noelle apenas queria saber o que havia perguntado, nenhum sinal de frustração, desconfiança ou agressividade evidenciada. - Tens estado avoada desde esse momento, como se... apenas um eco de ti se mostrasse ao mundo. - os seus olhos estreitaram-se com o pensamento, preocupação a surgir na sua voz enquanto o seu olhar passava pela irmã calada.

Anteriormente quieta, o brilho de Azuli despertou no seu olhar, voltando com o seu habitual visual.

- Aconteceu muitas coisas estranhas, Noelle. Num momento, eu estava a tocar no cristal, e no outro eu estava a voar ao teu lado! Eu sei que a minha mente esteve desligada por um bom tempo, mas não entendo o porquê...! Quando absorvi o primeiro cristal, isto não aconteceu. Pode ser que sejam efeitos colaterais?! - ela agarrou a sua cabeça. - Estou a dividir-me em diferentes Azulis?! - os olhos marejados de Azuli assemelhavam-se a uma maré, prestes a avançar contra a areia.

- Azulis? - Noelle aproximou-se de Azuli, aproximando bem os seus olhos contra os da menina, que havia deixado a sua capa vermelha de lado e colocado o manto dos cavaleiros reais, assim como todo o mundo. Soltando um suspiro, Noelle afastou o rosto do de Azuli e virou-se de lado, dando à irmã uma imagem do seu perfil. - O que queres dizer? - ela colocou a mão abaixo do queixo, encostando-se à parede.

Sentando-se na cama, Azuli começou a explicar, confiando em Noelle a informação: "Eu..." - a mão dela viajou até ao broche de Nozel. - "Eu acho que tenho múltiplas personalidades, Elle!"

De todas as coisas que Noelle já a ouviu dizer, ela podia garantir - Azuli pode surpreendê-la todas as vezes. Ela confrontou o olhar apavorado de Azuli e descruzou os braços.

- Eu vejo... - Noelle também se comportava de forma estranha, notou Azuli. - Aqui. - esticando a mão, um pedaço de papel foi colocado frente aos olhos de Azuli, que fitou a folha estranhamente. Dando um olhar à platinada, os olhos rosados apenas a observavam em antecipação. Enquanto Azuli lia após desdobrar a folha, Noelle falava. - Na masmorra, eu encontrei um pergaminho. Eu não o queria trazer, mas ele colou-se a mim e não queria soltar-me por nada. Se tu puderes ler a primeira frase...

- "A mana é o ser da pessoa e nela vive o quem o é." - Azuli leu, sentada no chão e encostada à cama.

- Isso não me tinha chamado à atenção antes, mas agora tenho uma ideia do que possa ser. - Noelle aproximou-se e inclinou-se sobre Azuli e a folha, então apontou para outra linha no texto. - Eu suponho que isto seja um estudo acerca da filosofia dos seres vivos. E aqui fala sobre a mana poder ser a essência da pessoa, como na teoria da clonagem, que dizia que: se uma mana fosse copiada, ela podia ser uma ligação entre a pessoa, o mundo tênue entre o limbo, e entre a teoria das vidas alternativas da pessoa entre dimensões temporais.

Piscando o olhar, Azuli olhava fixamente Noelle e depois voltava o olhar para Noelle, confusa: "Tu percebeste isso tudo apenas com este texto aqui?" - o seu olhar voltou para o texto de uma única página, antes de ser arrancada dela.

- Claro que não! - Noelle enrolou o papel. - Eu pesquisei o assunto mais afundo com outros materiais das bibliotecas reais e masmorras. O que eu quero dizer, é que tu podes estar a sofrer sim de efeitos colaterais, efeitos causados pela mana que esteve fora de ti ter ficado longe do corpo de origem e, possivelmente, tendo sido utilizada por outros magos e também estimulada em diferentes níveis e passado por diferentes circunstâncias. Resumindo muito bem, para entenderes, o que era apenas uma mana equilibrada, passou a ser um punhado de pedaços de puzzle que mal se encaixam uns nos outros.

Novamente, os olhos de Azuli piscaram, até que ele pulou e os seus olhos pareciam pular para fora das órbitas quando gritou: "É como se diferentes Azulis tivessem sido criadas durante o tempo em que estiveram fora de mim e agora todas se reuniram... aqui?!!!" - Azuli, saindo do transe eufórico, apontou para o seu peito, falando na possibilidade.

- Hum... - Noelle, de olhos fechados, pensava. - Sim, é basicamente isso. Entendeste direitinho! - um tom de orgulho enfeitou a voz e expressão dela. - Mas não sabemos se esses dois cristais eram os únicos por aí. Lembra-te que é uma condição complicada, não uma doença, mas ainda complicado. Sem falar que aquele doido do reino Diamante disse algo sobre um Cristal do Espírito, então... Quem sabe?

Vários minutos após conversarem no quarto, uma batida forte reverberou pelo quarto, alertando as duas raparigas, que se puseram a postos com os seus grimórios. A voz de Benjamin soou do outro lado.

O olhar de ambas foi em direção à janela, que as cortinas escondiam.

- Meninas, o problema começou. - o som de alarme veio do rapaz através da janela.

Com movimentos rápidos, Noelle e Azuli afastaram as cortinas e deram lugar ao cenário de fora.

- Uau... - ambos os olhares vislumbravam o fogo que se espalhava pelo reino com uma rapidez indesejada. A visão do topo da pousada oferecendo-lhes alguns detalhes privilegiados.

Na capital real...

Os cavaleiros reais, sendo os cavaleiros mais próximos e preparados para a ocasião, já estavam no local mais caótico da capital, enquanto que alguns rondavam e verificavam a área.

Passando com a sua vassoura entre alguns cavaleiros e cidadãos, Azuli, junto a Noelle e Benjamin ouviram os comentários de alguns.

- São os demónios, eles voltaram!! - um velho nobre berrou, a branquidão do seu rosto atormentando as crianças curiosas que escapuliram de casa.

- Que vultos são estes? - uma criança tentou tocar numa esfera que se formava perto de si, mas foi parada por uma mão. Siren, um cavaleiro silencioso, a havia detido e afastado da cena. Momentos depois, a esfera negra, como poeira a reunir-se, desfez-se.

- Estamos a ser atacados? Na capital do país?! - uma nobre condessa exclamou, o seu vestido ligeiramente amarrotado, fazendo quem olhasse para ele imaginar que a senhora havia-se vestido às pressas.

- Demónios?! - as irmãs, Azuli e Noelle, exclamaram, alarmadas.

- Não demónios, mas o Olho do Sol da Meia Noite. - do lado dos três, Nozel apareceu sobre uma superfície de mercúrio.

- Irmão Nozel... - Noelle o olhou, antes de se recompor. - Eu e a Azuli vamos apagar os fogos! Por favor, protege os cidadãos! - desviando de Nozel, Noelle puxou Azuli consigo e voou em direção ao maior fogo no campo periférico, na catedral, o centro do fogo que fazia-se espalhar para os arredores. A estrutura começava a desabar e as pessoas evacuavam o local com uma pressa desesperadora. Apesar de não olhar para traz e mal sentir a mana de Nozel, ver os punhais de prata serem lançados sobre as infraestruturas que iam caindo sobre pessoas acalmou ambas as meninas.


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