34#A gêmea da Guerreira Dragão do Mar
Capítulo 34 - O limite que não pode ser ultrapassado
- Capitão Yami!!! O senhor está mesmo perdido?! - perguntou Asta, incrédulo pelo seu salvador ter vindo em seu socorro por um mero acaso.
Eu ia morrer há pouco mesmo a sério! - pensou Asta, com os olhos em branco, antes de ser agarrado pela cabeça.
- Claro que não, seu imbecil. Era uma piada. - disse Yami, o cigarro na boca.
- O quê?!! - perguntou Asta, incrédulo, suor a escorrer pelo rosto.
- Obviamente eu vim porque sou um cavaleiro mágico. - respondeu Yami, antes de soltar a cabeça de Asta e desviar a sua atenção para o mago da magia de luz ao longe. - Uma rapariga utilizou um dispositivo mágico dado pela Noelle para avisar ao quartel de cavaleiros mágicos que estavam metidos em graves problemas. E o esquadrão que estava mais próximo desta cidade era os Touros Negros.
Felizmente, os magos do quartel general deram ouvidos à Rebecca! - pensou Noelle, aliviada. - Caso contrário... neste momento nós... não estaríamos bem. - Noelle olhou para Azuli, que mostrava sinais de exaustão, causados pelo uso contínuo de mana enquanto estancava e tentava fechar as feridas profundas de Theresa. - Como eu vou controlar a situação se ela não descansar? Nem que seja apenas por uns minutos! - pensou ela, a preocupação era evidente na sua expressão, ela apertava a sua roupa até os seus dedos aparentarem brancura.
- Nenhum dos membros da base parecia lúcido o suficiente, por isso vim pessoalmente. Mais tarde matarei todos eles. - explicou Yami, sem desviar o olhar de Licht. A memória de Vanessa, Charmy e Magna, todos esparramados nos seus sofás, apenas a dizer idiotices e ignorando totalmente a seriedade da situação, passou brevemente pela mente de Yami.
Por que eu não pude ficar a descansar? - questionou Finral, mentalmente, o suor a escorrer pela bochecha, enquanto a cabeça latejava pela bebida que havia tomado junto aos seus amigos.
- Eu devo pôr-vos em repouso eterno? - perguntou Yami, aos três jovens recrutas, que se encolheram sob o olhar do capitão. - Olhem o tamanho da encrenca que me arrumaram! Eu não disse para tirarem um dia de folga?!
Enquanto os três recrutas tremiam sob a expressão assombrosa de Yami, Finral olhava para Licht.
Quem diabos é aquele tipo com aquela mana arrebatadora?! E não apenas isso, mas a magia dele também é rara. Apenas algumas pessoas na história do reino de Clover tiveram o poder da luz! Não importa como se olhe, aquele tipo significa problemas!! Oh, por favor, eu só quero ir para casa! - pensou Finral, a sua vontade de estar ali era muito escassa ou mesmo nula.
No lado oposto ao local onde se encontravam os cavaleiros mágicos, Valtos mostrava-se apreensivo.
- Aquele homem é o capitão dos Touros Negros, não é verdade? Devo trazê-los? - perguntou Valtos, desviando o seu olhar de Yami para Licht, que encarava, sorridente, Yami.
- Não... Ele é um usuário da magia de escuridão. Sempre quis enfrentá-lo. - nenhum traço de medo se refletia no olhar de Licht, o confronto contra a magia oposta à sua empolgava-o.
- Velha!! - o grito soou pela caverna. Gauche rastejava pelo chão até Theresa, cujo sangue manchava o chão lentamente.
- Não morras!! Não te atrevas a morrer!! - Guache continuava a rastejar, pouco a pouco em direção a Theresa. - Se tu morreres... A Marie vai ficar muito triste!! - dito isso, Gauche abrandou e recuperava o fôlego. - E eu... Não vou sentir-me nada bem!!!
Noelle levantou-se e aproximou-se de Finral.
- Finral, leva a vovó, o Gauche e as crianças para a cidade. - pediu ela.
- Está bem, deixa comigo. - Finral olhou para Noelle, que parecia se esforçar para manter-se de pé. - Então e tu, Noelle?
- Eu ficarei para ajudar no combate. - disse Noelle.
E também... Tenho a certeza que ela não abandonará um combate contra o homem que magoou tanta gente inocente! - pensou Noelle, a palidez de Azuli começava a preocupá-la seriamente.
- Muito bem... - Finral concordou, então olhou para Asta e Azuli. - Asta, Azuli... - chamou ele.
- Eu ainda posso lutar!!! Esta é a minha oportunidade de ver o capitão Yami em ação!!! Até parece que eu vou fugir!!! - gritou Asta, a grande espada em mãos.
- Outro... - disse Finral, suor a escorrer da testa.
Será que a maluquice se espalha? Lutar contra magos poderosos... Isso é de doidos!! - pensou ele, nervoso.
- Então... Só faltas tu... Azuli. - Finral olhou para Azuli, que se mantinha concentrada na sua tarefa. A palidez da menina notava-se a olhos vistos. - Azuli? Ei... Talvez fosse melhor vires comigo. Estás um pouco pálida, sabias? - Finral aproximou-se de Azuli e ajoelhou-se perto de Theresa.
Após um breve momento de silêncio, Azuli respirou fundo antes de falar.
- Eu não vou. - disse ela, a olhar para Theresa, que se encontrava em um estado lastimável. Azuli relutantemente parou a cura de Theresa. - Por favor, leva a irmã Theresa até aos magos de cura, Finral.
- Sim... Tudo bem... - Finral pegou cuidadosamente em Theresa e criou um portal ao seu lado. - Não vais mudar de ideias?
- Oh... - Azuli olhava para Finral, surpreendida, antes de sorrir. - Não há problema! São nestes momentos que a minha força explode! Não te preocupes, Finral.
Com um aceno de cabeça, Finral andou até ao portal depois de indicar às crianças que o atravessassem. - Muito bem! Yami, por favor, cuida do resto! - Finral continuou a andar até ao portal.
- Ei, Finral. - Finral sentiu o olhar de Yami atrás de si. - Trata de regressar aqui depois.
Justo quando pensei que poderia salvar-me junto com os outros... Não deu muito certo... - pensou Finral, a sua esperança destroçada.
- Tu não queres que eu regresse a casa a pé, não é? - perguntou Yami.
- Não... Não... Só estava a pensar que a minha mana não seria o suficiente... Acreditas nisso, capitão? - perguntou Finral, desesperadamente com um sorriso no rosto enquanto despenteava o seu cabelo, até que ele olhou para Yami. - É sério, Yami!
- Eu também estou a falar a sério. - avisou Yami.
- Ah... é claro que sim, eu nunca duvidei disso... E-Então, vocês os dois... Conseguem andar?! - Finral olhava para Neige e Gauche que se levantavam com dificuldade. - Hm? - ele olhou para a fonte de poder atrás de si.
Imbuída em trevas, a katana de Yami cortara o ar atrás de Finral. Pedaços de luz desfaziam-se enquanto caiam.
- O que pensas que estás a fazer com a minha boleia? - perguntou Yami, a sua irritação era evidente.
- Boleia?! - questionou Finral, desgostoso, porém impotente contra a alcunha. - Certo, Yami! Eu vou andando! - após todas as crianças, Gauche e Neige passarem pelo portal, Finral segui-os.
Ah! Não importa quantas vidas eu tenha, nunca vão ser o bastante!! - pensou Finral, chegando ao portal com Theresa a reboque.
- Não te esqueças de voltar para me vir buscar, idiota!!! - gritou Yami, quando mais de metade do corpo de Finral já tinha passado o portal.
- Que incrível!! - Asta olhava para Yami com estrelas nos olhos. - Como fez para deter aquela coisa, senhor?!! E que espada é essa?! - gritou ele, empolgado.
- Cala a boca!!! - gritou Yami, enquanto levantava levemente a arma. - Esta é uma arma chamada Katana. É da minha terra natal, a Terra do Sol. E aquilo... - Yami colocou-se em posição de combate. - Não tenho tempo nem vontade de explicar agora! - várias espadas de luz iam sendo criadas atrás de Licht. - Apenas observa.
Com destreza, Yami cortava as espadas de luz assim que entravam no seu alcance, deixando vislumbres do seu poder de escuridão por onde a sua lâmina passava. As poderosas espadas de luz desfaziam em poeira reluzente ao toque da lâmina da Katana.
- Demais!!! - gritou Asta, admirado, com estrelas nos olhos.
- Rápido demais!! -exclamou Azuli, abismada com a façanha de Yami.
- Ele é habilidoso. - comentou Noelle, impressionada, com os olhos arregalados.
Ele está a aprimorar as suas habilidades físicas com magia de reforço e a cortar as minhas espadas com uma espada envolvida em magia da escuridão? - pensou Licht, analisando as habilidades de Yami. O sorriso singelo nunca deixava o rosto de Licht enquanto ele criava espadas de luz continuamente. - No entanto... Isso não é tudo o que ele pode fazer...
- O que te parece isto? - Licht apareceu atrás de Yami em um segundo, o ataque a ser acumulado na sua mão, contudo... - Então esse é o poder do grande cavaleiro mágico herege. - comentou ele, enquanto brilhos flutuavam à sua frente. O seu ataque havia sido cortado antes mesmo de ser lançado em Yami.
- Hum? - pelo canto do olho, Yami olhava para Licht, o cigarro nunca deixando os lábios de Yami. - Como é? Nós já nos encontrámos antes?
No segundo a seguir, a lâmina da katana passou rente ao pescoço de Licht, que se desviou habilidosamente dessa e dos demais ataques de Yami.
- Não conheço nenhum usuário de magia de luz. Afinal, quem és tu? - perguntou ele, antes de tentar cortar o peito de Licht. - O que ganhas em fazer isto? - perguntou Yami, dividindo um raio de luz ao meio, fazendo ambas as metades passarem pelas suas laterais até despedaçar a parede da caverna atrás de si.
A flutuar, Licht criava novas espadas de luz ao seu redor enquanto atacava Yami.
- Deixa-me contar-te uma história. - disse Licht, a sorrir abertamente ao som do choque das suas espadas de luz com a katana de Yami. - Era uma vez, há muito tempo, em uma certa vila, pessoas com magias poderosas. Elas eram amadas pela mana, elas eram abençoadas. Esses seres eram capazes de mudar o tempo, manipular a natureza... E também, eles tinham a capacidade de se tornar um com a mana. Eram um povo que podia enfrentar os deuses. Os humanos que viviam fora da vila, veneravam-nos. No entanto, gradualmente, os humanos começaram a temer esse poder, eles o invejavam e o desejavam. Por isso, pela cobiça, pela ambição, eles massacraram os magos após impossibilitarem o uso dos seus poderes... E roubaram a mana dos magos.
- A tribo dos elfos... - sussurrou Azuli, permitindo que todos ouvissem no silêncio da caverna.
Após um breve sorriso para Azuli, Licht pousou no chão. Frente a frente, Licht e Yami encaravam-se.
- Que história é essa? O que isso tem a ver contigo? - perguntou Yami. - Por acaso és um poeta ou algo parecido? - Yami refletiu por um momento e falou. - Bom, deixa-me contar-te uma história também: Em um certo lugar, havia um menino. Todos os seus amigos eram pescadores e ele também pescava desde que era pequeno. Um dia, ele naufragou e terminou em um país muito estranho. A sua raça e cultura eram diferentes. Por isso ele passou por boas dificuldades lá. Mas no fim, ele venceu todos e converteu-se no líder de um grupo. Fim. - Yami expeliu a fumaça do cigarro. - E então, o que achaste da minha história? É a história da minha vida.
- Que histórias do nada foram estas? - perguntou Azuli, perdida.
Eu acho que ele estava a falar da tribo dos elfos, mas... - Azuli olhou para Licht, que reparou no seu olhar e o retribuiu. - Os elfos têm orelhas pontudas, as dele são como as dos seres humanos comuns. - Azuli foi olhando para as restantes características do homem. - A sua pele é clara, o seu rosto em forma de diamante, o seu cabelo é branco reluzente, embora pareça cor de linho ao longe, e a mana... A mana supera qualquer membro da realeza que já conheci, definitivamente ele é poderoso... Terei que aprofundar os meus conhecimentos acerca da tribo dos elfos, mas... Ai, a maioria dos livros são da propriedade das famílias reais, e mesmo assim o acesso é restrito. - Azuli suspirou, derrotada.
- Hã? - Asta olhou para trás, em alerta pelo som de algo a chocar. - O que aconteceu? - perguntou ele ao olhar para Azuli, que tinha batido na sua testa com a mão. - Se estiveres cansada, podes sentar-te aí, eu protejo-te, Azuli! - exclamou Asta, segurando ambas as espadas .
- Tolo! - chamou Noelle a Asta, perto de Azuli. - A minha magia já se recuperou um pouco, então quem a protege sou eu, Asta!
- Tu também estás cansada, não é, Noelle? Deixa-me proteger-te também! Eu ainda tenho muita energia para dar cabo deles! - exclamou Asta, convicto.
- Eu sou da realeza! Não preciso da tua proteção, Astúpido! - exclamou ela, o vermelhidão a apoderar-se das suas bochechas. - Eu dou conta do recado.
- Vamos, Noelle! Sabes tão bem quanto eu que isso não é verdade! É como quando o Gauche queria lutar sozinho, eu protejo-te e tu proteges-me! É assim que vamos derrotar aqueles tipos! - exclamou Asta, entusiasmado.
- Olhem, a minha mana já voltou um pouquinho, deve ser o suficiente para lutar também. - disse Azuli, após olhar entre Asta e Noelle, confusa, tentando acalmar a emoção à solta.
- Fica bem quietinha aí! - exclamou Asta, prezando pela segurança da amiga.
- Fica fora disto! - exclamou Noelle, olhando para Azuli, que apenas pôde sorrir enquanto suor frio escorria pela testa.
- Hehe... Então está bem. - disse Azuli, com as mãos no ar, em rendição.
A ouvir a discussão dos jovens encrenqueiros, estavam Licht, Yami e Valtos, o qual apertava os seus punhos fortemente e forçava o ranger dos dentes.
Crianças malditas... Como ousam... Como todos ousam... - pensava Valtos.
- Seus malditos!! Não ousem troçar do senhor Licht!!! - gritou ele, a plenos pulmões, expondo a sua raiva.
- Cala a boca! E mantém essa cara feia que tens longe da minha vista!!! E por quê que tens essas linhas nela?!! - gritou Yami, exaltado.
- Vai perguntar isso agora?! - perguntou Asta, pasmo, os olhos em branco.
- Isso não se diz, capitão! - gritou Azuli, com os olhos em branco.
- Que rude! - gritou Noelle, surpreendida, igualmente com os olhos em branco.
Yami cortou o ar à sua frente para se defender do ataque de Licht, mas sangue fluiu do seu ombro, parte da alça da regata branca de Yami rasgou-se.
Ficou mais rápido. - notou Yami, ainda em posição de combate.
- Como és estrangeiro, acredito que a minha história não tenha nada a ver contigo. - concluiu Licht, sorridente. - Vem brincar comigo.
Licht direcionou dezenas de espadas de luz para Yami.
- Capitão Yami!! - gritaram os três Touros Negros, alarmados. O seu capitão não acompanhava mais os ataques do oponente, sangue saía da sua pele e carne cortadas enquanto Yami mantinha o foco na defesa.
- Por quanto tempo vais durar contra golpes fatais? - perguntou Licht, curioso.
- Foste tu quem derrotou o Fuegoleon e as minhas meninas, não foste? - perguntou Yami, enquanto defendia os ataques.
- Exatamente. - confirmou Licht, chocando Asta, a quem até então ninguém, nem mesmo Azuli e Noelle, lhe havia contado quem fora o responsável pelo estado deplorável em que as deixaram. - Foi um plano elaborado muito cuidadosamente... E no final, eles foram forçados a cair numa armadilha. Embora a princesa ter ido junto não estivesse no plano.
Para dizer a verdade, agora que eu penso, por que ele não me levou consigo? Se era um desejo dele ter o meu poder, por que ele me devolveu aos meus amigos? Pode ser que... o cristal me tenha protegido... - pensou Azuli, intrigada.
- Imaginei que tivesse sido isso mesmo. - revelou Yami, cabisbaixo. Apertando a katana com força, ele avançou contra Licht. - Porque tu jamais terias derrotado o Rei da Persistência com coisas como estas!!!! Magia de escuridão: Capa de Escuridão do Corte de Avidya!!!
Da sua katana, a escuridão alastrava-se ao redor de Yami, e dela, um poderoso e veloz corte de escuridão foi lançado contra Licht, que voava propositalmente para trás.
- Senhor Licht!!!! - gritou Valtos, preocupado.
O maior dano foi causado ao teto da caverna, que desmoronou, permitindo que a luz da lua sombreasse o dono das trevas.
- Se não tivesses jogado sujo, jamais serias capaz de vencê-lo, não é verdade? - a voz calma de Yami causava arrepios nos jovens recrutas. Valtos não abria a boca para defender o seu mestre. - Desta vez, vem com tudo. Eu vou mostrar-te o verdadeiro poder de um capitão!!! - Yami, cordialmente, apresentou a sua katana a Licht, o seu rosto não mostrava misericórdia, apenas a convicção no seu poder.
O som dos destroços rochosos a cair inundava a caverna, olhares foi tudo o que trocaram pelos momentos seguintes.
O sangue escorria pela bochecha esquerda de Licht, mas ele sorria. O combate contra o dono da escuridão não parecia uma má ideia, pelo contrário, o confronto despertava a emoção em Licht.
- Ei, miúdos! Viram aquilo? - perguntou Yami, de costas para eles.
- Sim, senhor! - exclamaram os três.
- Foi fantástico!! - exclamaram Azuli e Asta, com estrelinhas brilhantes e estrelas nos olhos, respetivamente.
Eles apenas estão a medir a força um do outro! - concluiu Noelle, após analisar toda a luta até ao momento.
- Ótimo. Agora tentem vocês. - mandou Yami.
- Sim, senh... - a realidade bateu nos três antes de terminarem a fala.
- Isso não tem cabimento!! - gritou Noelle, abismada.
- Não temos magia de escuridão!! Não tem como nós fazermos isso!! - gritou Azuli, confusa, os olhos em branco.
- Até parece! Não pode estar a falar a sério!! - gritou Asta, incrédulo.
- Hã? Com quem acham que estão a falar? - perguntou Yami, apertando a cabeça dos dois jovens aterrorizados. - Se eu vos ordenar fazer uma coisa, vocês fazem!! - disse ele, enquanto os dois se debatiam para escapar ao aperto. - Isto também é para ti, Noelle. - Yami olhou para Noelle, que pulou no lugar, enquanto engolia a seco. - É assim que se torna num grande mago.
Não posso crer no que este homem fez... Ele não só bloqueou o último ataque como também contra-atacou! - pensou Valtos, desconcertado. - Será que o líder dos Touros Negros tem poder suficiente para rivalizar com o Rei Mago?
- Estou a começar a compreender.... Com que então, é assim a magia de escuridão... - disse Licht, tocando ao redor do corte da bochecha com a sua luva negra na mão direita. - Magia de Recuperação de Luz: Partículas de Cura da Luz.
Uma esfera de luz envolveu a parte superior do corpo de Licht e, em poucos segundos, o corte fechou-se, enquanto o sangue que havia escapado da ferida desapareceu.
- O quê? Ele consegue usar magia de recuperação também! - disse Asta, enquanto acariciava a sua cabeça. - A irmã Lily e a Azuli são as únicas pessoas que conheci até agora que podiam usar os dois tipos de poderes.
- Raramente vejo algo assim... Acho que pessoas com bastante mana são capazes de fazer qualquer coisa. Sem falar que é bem raro ver alguém que usa magia ofensiva ser capaz de curar também. - comentou Yami.
- Isso é o que chamamos de talento. O talento tende a ser equivalente ao nível de mana da pessoa. - comentou Noelle.
- Isso significa que ainda tens muito o que aprender, não é, Noelle?! - perguntou Asta, animado pela amiga.
- Como é? - Noelle confrontou Asta. - Por acaso acabaste de me chamar de fraca, Asta?
-O quê?!! Claro que não, entendeste errado! - Asta inclinou-se para trás, para longe da Noelle irritada. - O que eu quis dizer foi que, como membro da realeza, tu tens muita mana! Isso significa que a magia que tens agora nem se compara ao potencial que ainda tens por descobrir! Foi isso! - esclareceu ele.
- Hm! - Noelle voltou para o lado de Azuli.
- Mais calma? - perguntou Azuli, divertida, batendo delicadamente nas costas de Noelle.
- Não gozes, Lili. Ele é um idiota. - disse Noelle, com um leve rubor rosa.
- O combate recuperar-te-á o entusiasmo, vais ver, Elle!! - exclamou Azuli, animada, com o punho levantado ao nível do peito.
- Nada disso importa. Vamos, fiquem em posição.
Ele não está a brincar!! - percebeu Asta, os olhos em branco.
Ele ainda insiste que o copiemos!! - pensaram Azuli e Noelle, a boca aberta em choque.
- Não, é sério, eu não consigo. Não no meio de uma batalha. Sem contar que eu nem tenho magia. - Asta foi até Yami.
- E sem magia de escuridão, isso é totalmente impossível! - disseram ambas as meninas, próximas a Asta.
- Eu não vos mandei copiar, idiotas. Mas sim... É disso mesmo que eu estava a falar. - Yami sorriu para a jovem.
Em um reflexo, uma espada de água havia sido criada na mão de Azuli, que a manuseou instintivamente para cortar a espada de luz que iria cortar Yami.
- Vocês devem copiar a minha defesa. - esclareceu Yami.
- Eu não tenho os mesmos reflexos que a Azuli, como vou defender-me de um ataque que nem consigo ver?!! - gritou Asta.
- O mesmo aqui. Não tenho nem os reflexos da Azuli, nem o físico destes dois. Já para não falar que não tenho uma espada. - avisou Noelle, com uma expressão infantilmente enervada.
- Desenrasca-te e ultrapassa os teus limites!! - gritou Yami, enquanto defendia outro ataque. - Parece que está na hora de dar uma de tutor. Vou cobrar cinco yuls depois de cada um de vocês.
Ele vai cobrar-nos?! - pensaram os três.
- Eu só consegui reagir aos ataques porque na minha terra natal existe uma coisa chamada KI.
- KI? Não é mana? - perguntou Asta, curioso.
- Não. É a energia corpórea que as pessoas emitem ao olhar, o som da sua respiração, cheiros, e até mesmo os movimentos dos seus músculos. O KI é o termo usado para todos os diversos tipos de energia vital do corpo humano. - Yami explicou. - Conforme sentem o KI, poderão mover-se de acordo com a percepção do que o adversário fará. - Yami olhou para Asta. - Já sentiste isso, não é?
Sim, Asta lembra-se do momento em que descobriu o esconderijo de Valtos no meio de um amontoado de zumbis. Ele havia-o ouvido.
- Mas no meu caso, eu uso o KI, força e mana para lutar. - Yami começou a aquecer ao defender as espadas de luz. - Por isso sou tipo um espadachim mágico.
- Músculos! Por isso o seu pescoço é tão grosso, capitão Yami! - comentou Asta, empolgado.
- E no que tu és diferente?! Para de falar asneiras, ó, pirralho. - mandou Yami.
- Entendi! Só temos que adaptar o KI com a forma como utilizamos a nossa magia! - exclamou Azuli, ligando os pontos. - Agora é só aprender a usar o KI nos próximos minutos. - disse ela, com uma mão no queixo.
- Se é pela percepção de energia vital, quem tem pouca magia deve ter mais facilidade. E quem não tem nenhuma... - Noelle olhou para Asta. - Deve acontecer instintivamente.
- Estamos numa boa altura para aprender, então. A nossa mana foi quase toda embora, isto vai ser fácil! Vamos tornar-nos mestres no KI em três tempos!
- Não sei se me animo ou entristeço... - suor escorria pela bochecha de Noelle, que estava de braços cruzados.
- Ahahah... Não subestimes a complexidade do KI, miúda! - exclamou Yami, ao som do choque da sua lâmina contra as espadas de luz.
- Maldição... - disse Valtos. - Quem ele pensa que é para conversar enquanto está numa batalha... Não vou permitir que lute a sério, senhor Licht. Posso estar a intrometer-me demais, mas, por favor, permita-me ajudá-lo...
- Obrigado, Valtos. Tu sempre te preocupas comigo. - Licht sorriu de olhos fechados para Valtos. - Nesse caso, que tal capturar as meninas e o rapaz? Não me importo se pegares um pouco pesado com eles.
- Não vou nem mesmo suar para isso. - informou Valtos, acumulando mana na palma da mão, enquanto abria um pequeno portal à sua frente.
Yami defendeu a bala mágica que ia bater em Noelle.
- Tsc... - expressou Valtos, frustrado.
- Foi por pouco! - disse Noelle, olhando para o pequeno portal atrás de si.
- Isso é bom. Usem aquele zumbi para praticar. - Yami apontou para Valtos.
- Hã? Aquele cara?! Não vou conseguir fazer isso logo de cara! O capitão está maluco?! - exclamou Asta, nervoso.
- Com empenho é possível que eu consiga usar o KI. - Noelle pensava em voz alta.
- Três contra um não parece uma batalha justa. - Azuli revelou oque passava pela sua mente.
- Na minha terra natal temos um ditado: " um guerreiro nunca volta atrás com a sua palavra". - disse Yami. - "Eu vou ser o Rei Mago", " Eu vou ser a Guardiã de Clover", "Eu vou ser uma maga digna"... Essas foram as vossas palavras, não foram? - Yami tragou o seu cigarro. - Então superem os vossos limites aqui e agora. Esse é o caminho para realizarem os vossos sonhos.
- Sim, senhor! - exclamaram os três, determinados.
Não entendi tudo, mas... Preciso concentrar-me... Concentra-te... - pensava Asta, em posição de ataque.
Perceber as energias vitais do corpo... O Otávio já me tinha falado sobre algo do gênero. - pensou Azuli. - O foco é a chave. - pensou ela, com a sua espada de água em mãos.
Como é que eu vou fazer isto? - Noelle olhava para a sua varinha. - O capitão disse que o KI era a percepção do que há ao nosso redor, não é preciso necessariamente de uma espada...
- Como se umas crianças quaisquer pudessem prever os meus ataques. - menosprezou Valtos.
No próximo instante, os três se voltaram para diferentes direções e efetuaram os seus ataques. Contudo, nenhum deles foi capaz de defender-se por completo.
- Vocês fizeram errado. - afirmou Yami, enquanto chutava os três, fazendo-os cair. - Vocês não me enganam, seus trapaceiros. Tu só reagiste à tua audição... E vocês à presença de mana para detetar o golpe... Isso não é KI. - disse ele, o seu rosto medonho a olhar para os três jovens Touros Negros. - Podem até tentar, mas não vão conseguir enganar-me dizendo que é KI. Usem todos os cinco sentidos e sintam com o vosso corpo todo, seus animais.
- Com o corpo todo? - perguntou Noelle.
Para o uso do KI, a minha forma de lutar deverá mudar, portanto. - pensou Noelle, as peças do quebra-cabeça a encaixarem-se.
- É. Não podem só depender dos olhos ou dos ouvidos, e muito menos depender da presença de mana. É como um meio termo entre instinto e prever o futuro. Se não fizerem isso direito, acabo com a vossa raça. - ameaçou Yami, frangindo a testa.
Este homem é doido! - pensaram os três, com os olhos em branco. - Mas... - todos se posicionaram. - Creio que o truque... é começar do zero e... concentrar-me.
Após breves momentos cabisbaixos, os três correram disparados, cada um para uma direção.
- O quê?!! - em meio às rachaduras que se formaram no chão, um Valtos que convulsava pela água que parecia eletrocutá-lo cuspia sangue.
Do seu próprio jeito, pelos três pequenos portais, os três contra-atacaram após defenderem com sucesso o ataque de Valtos.
- Ah! Eu fiz isso! - comemorou Azuli, a recuperar o fôlego. Novamente, a sua pele estava pálida e suor frio escorria pelo rosto.
- Consegui! - gritou Asta, respirando pesadamente.
- Eu consegui mesmo! - comemorou Noelle, alheia ao seu redor.
- Capitão Yami, acertámo-lo!! - gritou Asta, realizado.
Por outro lado, o capitão não parecia tão entusiasmado...
- Eita... Vocês conseguiram mesmo? Que monstros... - Yami colocou o braço mais perto do corpo, em forma de defesa. - Fiquem longe de mim...
- O quê?!!!!!!! - os três gritaram, desacreditados, com os olhos em branco.
- Valtos... - Licht olhava Valtos a lutar para respirar. - Vocês vão pagar por isso! - apesar de enervado e enojado pelo ato atroz contra o seu companheiro, Licht mantinha o tom de voz calmo. - Não vou tolerar que magoem os meus companheiros novamente! - o grimório de Licht virava de página.
- Acordem! Quem deu o primeiro passo foram vocês! - gritou Azuli, antes de ser cegada pela luz dourada.
- Não pretendia usar um método tão atroz em ti, pequena Azuli, mas não posso perdoar o mal que fizeste ao Valtos! - ao redor de Licht, extensas cordas de luz moviam-se livremente. - Esta magia move-se como um chicote. Serão capazes de prever os seus movimentos? Os chicotes eram usados para punir criminosos... Ele é perfeito para vocês os quatro!! Magia de Criação de Luz: Chicote do Julgamento!!
A exaltação de Licht não mediu consequências. O chicote chocava contra toda a caverna, a poeira flutuava pelo ar.
- A caverna está a desmoronar!! - alertou Asta. O chão havia-se deformado e as estalactites caíam.
- Vamos ser esmagados por estes pedregulhos se não formos embora logo! - gritou Noelle, em meio aos estrondos.
- Ahahahahahahaha! Aquele tipo perdeu o resto de sanidade que ainda tinha! Ahahahaha! - ao contrário dos jovens, Yami divertia-se em meio ao caos.
Mas os risos cessaram.
Nenhum Touro Negro estava à vista.
A luz do sol que se punha entrava na caverna através do largo buraco no cimo da caverna, por onde entravam poucos flocos de neve reluzentes.
O chicote desapareceu.
- Isto não está bem... Eu contive-me ao máximo, mas... Suponho que eram fracos demais. - concluiu Licht, sorridente, sob a luz do sol que espreitava a caverna. - Tanto eles... Quanto este mundo.
- Isso foi incrível!! - exclamou Valtos, num farrapo ainda deitado, todas as suas forças eram usadas nos elogios. - Esse é mesmo o poder de um Deus!! Contra isso, o poder de um membro do exército de cavaleiros mágicos não é nada!!
Licht passava o seu olhar pela destruição que causou, com um sorriso. O olhar era sereno, mas desvaneceu assim que ouviu uma batida.
- Hum? - Valtos colocou a sua mão sobre o peito, desnorteado.
Outra batia soou pela caverna. Outra... E outra seguiu-se... Elas tornavam-se mais altas.
Um... coração? - questionou Licht, mentalmente, ao olhar ao redor, até parar em um ponto.
O ritmo acelerava, o batimento do coração era ouvido pela caverna... O seu vislumbre passou a ser percebido. Sob os destroços do teto, uma mana azul translúcida foi crescendo e diminuindo, semelhante a um coração a bater.
Com o ruído ensurdecedor na caverna, Licht e Valtos tiveram que recuar para longe da mana que se alastrava. Eles ouviram outro estrondo, mas um diferente.
Sob a poeira que levantou, Noelle expandiu a sua cúpula, usando-a para afastar os destroços e a poeira para longe.
- É isso aí, Noelle!! Se se concentrarem, vão conseguir sentir até a mana da natureza! Agora vocês não vão se matar toda a vez que um adversário usar um golpe tão sacana quanto um deslizamento de terra!!
- Isso aí, o KI é demais!! - exaltou Asta.
- Mana!! - Noelle acudiu Azuli.
- Hã? Azuli? - Asta procurou por Azuli, e assim que a viu encolhida e a tremer, foi a seu socorro. Azuli! - Asta ajoelhou-se perto de Azuli. - O que aconteceu?!
O corpo dela está a exalar mana puxada da sua energia vital? Que maluquice é essa... - pensou Yami, a olhar atentamente para a sua recruta, enquanto dava o último trago no seu cigarro.
O olhar monótono de Licht passou pelo olhar de Yami, que o encarava fervorosamente.

